A pandemia do novo coronavírus forçou milhões de pessoas a adaptarem suas rotinas de trabalho. Muitos precisaram trabalhar de forma remota, ou seja, de casa, e outros foram convidados a entrar em férias coletivas ou aceitar licença remunerada. Mobile Time conversou com uma série de empresários, especialistas de direito e de recursos humanos para entender como companhias e funcionários estão assimilando esse novo cenário. As entrevistas renderam uma série com três reportagens sobre trabalho remoto. Nesta, a primeira delas, é abordado como empresas de diferentes tamanhos estão administrando o uso do home office em suas corporações, quais regras estão seguindo, quais foram flexibilizadas, como fica a jornada de trabalho e quais tecnologias estão em uso.

Entre as grandes empresas um exemplo é a Cielo. A companhia tem aproximadamente 2,2 mil colaboradores trabalhando remotamente ao mesmo tempo, e chegou a atingir um pico de quase 2,7 mil pessoas. Além disso, a companhia de pagamentos registrou mais de 1,6 mil videoconferências e 39,4 mil mensagens no chat dentro dessas ligações em um único dia. A empresa usa o Microsoft Teams.

Diariamente, a cúpula da Cielo realiza duas reuniões por videoconferência com 12 pessoas por vídeo simultaneamente: uma no início da manhã e outra no fim do dia.

“No check-in avaliamos se está tudo bem com as pessoas ou se temos algum incidente para gerenciar/acompanhar e é o momento onde fazemos o alinhamento das atividades do dia, onde damos o direcionamento. No checkout, fazemos um balanço de como transcorreu o dia e acompanhamos o que foi realizado”, diz Paulo Naliato, vice-presidente de desenvolvimento organizacional da empresa. Com essas ações, a Cielo tem menos de 30 pessoas trabalhando nos escritórios da companhia em Alphaville ou São Paulo.

“Como resultado, nós estamos com um alto nível de produtividade e qualidade de vida para as pessoas. É preciso lembrar que não gastam tempo com os deslocamentos”, completa Naliato. “Sem dúvida nenhuma, este é um aspecto interessante nesse cenário desafiador, que vai mudar para sempre a nossa forma de trabalhar”.

RH

No entanto, não são todas as empresas que conseguiram se adaptar. De acordo com uma pesquisa da Robert Half feita entre os dias 18 e 19 de março, 41% dos profissionais disseram que as firmas que trabalham aderiram ao home office pela primeira vez com o isolamento para conter a Covid-19. Além disso, uma pesquisa da Abinee descobriu que apenas 33% dos seus associados adotaram o trabalho remoto.

“As empresas de uma forma geral, nos primeiros dias de isolamento, não sabiam como agir. Depois, adotaram planilha de controle e acompanhamento, reuniões diárias, passaram a fazer acompanhamento das tarefas – sempre determinando tempo e dentro do escopo de trabalho”, explica Simone Pita, professora de carreiras da HSM University.

Pita ressalta que o episódio da Covid-19 tirou as pessoas e as empresas da “zona de conforto”. Muitas delas precisaram se adaptar em curto espaço de tempo: “As pessoas precisam se adequar às novas tecnologias e novos comportamentos. Eu entendo que o home office passa a ser uma rotina, uma necessidade. E que muitas empresas começam a olhar para o home office de forma diferente. Vão olhar isso como uma facilidade. Mas, para algumas companhias, o processo é mais longo. Essas ainda estão se adaptando”.

Equipamentos

Para garantir o trabalho remoto, muitas empresas precisam investir em equipamentos para os seus funcionários. É o caso da Hitachi Vantara, que colocou seus 92 colaboradores da filial brasileira para trabalhar em casa. “O cotidiano dos nossos funcionários basicamente depende de acesso ao servidor (VPN) e administração de papelada que muitas vezes conseguimos contornar com o DocuSign. Entretanto, ainda existem situações nas quais precisamos ter equipamentos, como é o caso de TI, com os notebooks. Neste caso, ainda estamos discutindo como agir”, relata Gustavo Rodriguez, HR Advisor da Hitachi Vantara no Brasil.

“Em mobile, a Hitachi oferece um aparelho corporativo para os funcionários. No entanto, todos podem acessar o e-mail via celular particular se preferirem, porém, somente através de um aplicativo chamado ‘Portal da Empresa’; onde possuem os apps do Outlook, Teams, Excel etc. Essa é uma maneira de reforçar a segurança da informação e proteção de dados da empresa”, completa.

Outra empresa que vem se preparando é a HSM. Em menos de três dias, a companhia, que trabalha com educação e eventos, colocou 110 funcionários para trabalhar de casa. Alugou celulares para parte de seu time e modems LTE para pessoas sem sinal de Internet. No entanto, Guilherme Zillig, diretor da TI da firma, cita como principal desafio a comunicação: “Um dos desafios é a conexão das pessoas. A gente tenta colocar o WhatsApp para fora da operação. O foco do nosso trabalho é no Teams. Orientamos a todos colaboradores para trabalhar com uma única ferramenta. Usar WhatsApp e Telegram é preocupante, pois se ele quebrar ou for roubado, eu não tenho garantia de nuvem. O Teams tem nuvem e os notebooks que fornecemos têm nuvem também”.

Startups

Nas entrantes do cenário de tecnologia, a administração do home office é similar. Na More Than Real, a empresa com 11 funcionários adotou o trabalho remoto na segunda-feira, 16, e segue regras similares das médias e grandes, como uso de ferramentas de gestão e comunicação de time. No caso da More, a empresa usa o Slack, Google Meets e Trello. E assim como a HSM evita utilizar o WhatsApp.

“Temos um conjuntinho de regras que é bem tranquilo. Decidimos na quinta-feira, 12. O horário de trabalho é entre 9h e 18h. e temos uma tolerância de meia hora para o funcionário entrar na reunião. Mesmo antes, as pessoas já estão conectadas ao Slack. Se alguém precisa sair, avisa. Não tem situação de deixar sem responder ou avisar. A gente evita usar o WhatsApp para trabalho. Temos um grupo, mas é só pessoal”, conta Marco Trinca, sócio e head de XR da startup. “O que a gente estabeleceu é que ficamos juntos no Slack e só deixa de ficar online na hora do almoço, ou respirar, ir ao mercado. Outra coisa que fazemos, é montar várias salas de reuniões, por projeto, no Meets”.

Contudo, o grande problema para startups está na economia. Amure Pinho, presidente da ABStartups, explica que a maioria de suas associadas não estão tão expostas à crise, se comparadas a firmas que atuam nos setores de serviço e restaurantes. Mas há ressalvas, como as empresas que trabalham com delivery, logística e viagens.

Para essas companhias, Pinho explica que o ideal é reduzir custos, negociar dívidas, reter clientes e analisar planos: “Elas devem cortar custos, se preparar para uma crise de seis a doze meses, tentar salvar caixa o máximo que puder, segurar os clientes que vão querer cancelar, rever todos os planos de marketing e expansão. E de maneira nenhuma devem gastar dinheiro”.

Leia a matéria pelo portal Mobile Time.

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